Esfinge de Gizé: Quem Construiu e o Que Houve com o Nariz

A maior escultura monolítica que sobreviveu do mundo antigo — talhada de dentro para fora de uma única elevação de calcário, e enterrada na areia durante a maior parte da própria história.

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O que é a Esfinge de Gizé

Corpo de leão, cabeça humana, olhando para o leste. A Esfinge de Gizé tem cerca de 73 metros de comprimento e 20 metros de altura, o que a coloca entre as maiores esculturas já feitas por qualquer civilização.

O detalhe que quase ninguém conta e que muda a forma de olhar para ela: a Esfinge não foi construída, foi escavada. Não há blocos empilhados. Os egípcios encontraram uma elevação de calcário no platô, cavaram um fosso em volta e foram retirando pedra até sobrar a figura. É uma escultura feita por subtração, no lugar exato onde a rocha já estava.

Isso também explica o estado dela. As camadas de calcário do platô não têm todas a mesma dureza, e as mais moles ficaram na altura do corpo — por isso o corpo está bem mais desgastado que a cabeça, que saiu de uma camada superior mais resistente.

“Esfinge” é palavra grega. Os egípcios do Império Novo a chamavam de Hor-em-akhet, “Hórus no horizonte”, e a tratavam como um deus solar por direito próprio, com sacerdócio e oferendas. A página sobre Hórus, o deus falcão explica por que esse nome não é aleatório.

Quem mandou construir a Esfinge

A atribuição aceita pela maioria dos egiptólogos é Quéfren, faraó da IV dinastia, por volta de 2500 a.C. — o mesmo dono da segunda pirâmide de Gizé.

Os argumentos são de posição, não de inscrição: a Esfinge fica dentro do complexo funerário de Quéfren, alinhada com a calçada processional e o templo do vale dele, e o rosto guarda semelhança com as estátuas conhecidas do rei. O templo da Esfinge, logo à frente, foi erguido com blocos gigantescos retirados do próprio fosso durante a escavação, o que amarra as duas obras no tempo.

Há divergência acadêmica — alguns pesquisadores propõem Quéops ou Djedefré — e é honesto dizer que nenhum texto do Império Antigo afirma quem mandou fazer a Esfinge. Nenhuma inscrição contemporânea a nomeia. A datação vem do contexto arqueológico, e o contexto aponta para Quéfren.

Sobre quem eram esses reis e o que mais deixaram, veja Pirâmides do Egito: quem construiu e como visitar.

O nariz: o que realmente aconteceu

Não foi Napoleão. Essa é a versão mais repetida e é demonstravelmente falsa, por um motivo simples de checar: existem desenhos da Esfinge já sem nariz feitos décadas antes de os franceses chegarem ao Egito.

O dinamarquês Frederic Louis Norden desenhou a Esfinge em 1737 e publicou as pranchas em 1755. A figura aparece sem nariz. Napoleão só desembarcou no Egito em 1798 — sessenta e um anos depois. Seja quem tenha sido, já tinha acontecido.

A explicação mais antiga que temos vem do historiador árabe al-Maqrizi, escrevendo no século XV. Segundo ele, em 1378 um sufi chamado Muhammad Saim al-Dahr desfigurou a Esfinge ao encontrar camponeses fazendo oferendas a ela na esperança de boas colheitas. Ele considerou aquilo idolatria. O relato diz que a população o linchou pelo que fez.

A barba também não está lá. Fragmentos dela existem — parte no Museu Britânico, parte no Egito — e há debate sobre se a barba era original ou um acréscimo do Império Novo, mil anos depois da escultura.

A Estela do Sonho, entre as patas

Entre as patas dianteiras existe uma laje de granito de mais de três metros. É a Estela do Sonho, colocada ali por Tutmés IV por volta de 1400 a.C., e conta uma das histórias mais humanas que sobreviveram do Egito antigo.

O texto diz que o príncipe, ainda não rei, caçava no platô e adormeceu à sombra da Esfinge, que então estava soterrada até o pescoço. A Esfinge lhe apareceu em sonho, queixou-se do peso da areia e prometeu-lhe o trono do Egito em troca de ser desenterrada. Ele desenterrou. E virou faraó.

Egiptólogos leem a estela com ceticismo: Tutmés IV provavelmente não era o herdeiro natural, e um sonho enviado por um deus é uma justificativa conveniente para uma sucessão irregular. Como propaganda dinástica, funcionou — e de quebra deixou registrado que, já em 1400 a.C., a Esfinge era uma antiguidade que precisava de resgate. Ela já tinha mais de mil anos naquele momento.

Séculos enterrada até o pescoço

A imagem da Esfinge inteira, exposta da pata à cauda, é recente. Durante a maior parte dos últimos quatro mil anos, só a cabeça apareceu acima da areia.

Tutmés IV a desenterrou. A areia voltou. Os romanos limparam de novo, e a areia voltou outra vez. Escavações do século XIX chegaram ao peito e pararam. A liberação completa, até a base e o fosso, só foi concluída entre 1925 e 1936, pelo engenheiro Émile Baraize.

Há uma ironia útil nisso: o soterramento preservou a Esfinge. As partes que passaram milênios cobertas chegaram ao século XX em condição bem melhor que a cabeça, exposta o tempo todo ao vento, ao sal e à areia. O que a escondeu foi também o que a salvou.

A discussão sobre a erosão pela água

Vale tratar o assunto de frente, porque aparece em todo vídeo sobre o tema.

Nos anos 1990, o geólogo Robert Schoch, junto com o autor John Anthony West, sustentou que os sulcos verticais nas paredes do fosso da Esfinge são marcas de chuva prolongada, não de vento e areia. Como o Saara só teve esse regime de chuvas milhares de anos antes de Quéfren, a conclusão proposta foi que a Esfinge seria muito mais antiga do que a egiptologia afirma.

A posição majoritária rejeita a tese. As objeções são concretas: as camadas de calcário do platô têm durezas diferentes e erodem em faixas mesmo sem chuva; há sal e orvalho agindo sobre a rocha; e, sobretudo, não existe vestígio da civilização que teria feito uma obra dessa escala milhares de anos antes — nem cerâmica, nem ferramentas, nem assentamento, nem enterros.

A resposta honesta é essa: a observação sobre o padrão de erosão é uma discussão legítima entre especialistas; a conclusão de uma civilização perdida não tem sustentação arqueológica. No local, o guia mostra exatamente onde as camadas mudam, e o argumento fica visível a olho nu.

A Esfinge de perto, e como ela ficou por milênios

Inclusive a fotografia de arquivo em que ela ainda aparece enterrada até o pescoço.

A Esfinge de Gizé, talhada na rocha do platô
A Esfinge de Gizé, talhada na rocha do platô
A Esfinge ainda soterrada até o pescoço, antes da escavação completa
A Esfinge ainda soterrada até o pescoço, antes da escavação completa
A Esfinge e as pirâmides de Quéfren e Quéops
A Esfinge e as pirâmides de Quéfren e Quéops
Pirâmide de Djoser, em Saqqara
Pirâmide de Djoser, em Saqqara

Perguntas sobre a Esfinge de Gizé

Qual é o tamanho da Esfinge de Gizé?

Cerca de 73 metros de comprimento, 20 metros de altura e 19 metros de largura na base. Só a cabeça tem aproximadamente 10 metros. É a maior escultura monolítica — feita de uma peça só de rocha — que sobreviveu do mundo antigo.

Napoleão atirou no nariz da Esfinge?

Não. Existem desenhos de 1737 que já a mostram sem nariz, e Napoleão chegou ao Egito em 1798. O relato mais antigo atribui a mutilação a um religioso chamado Muhammad Saim al-Dahr, em 1378, indignado com oferendas feitas à estátua.

Existe alguma câmara secreta dentro da Esfinge?

Levantamentos detectaram cavidades e fissuras na rocha sob e ao redor dela, o que é esperado num maciço de calcário natural. Nenhuma câmara construída, com conteúdo, jamais foi confirmada. Quem afirma o contrário está adiantando uma hipótese, não relatando um achado.

Dá para chegar perto da Esfinge?

Sim. O ingresso do platô dá acesso ao terraço em frente e à área do templo do vale, de onde saem as fotos clássicas com a pirâmide atrás. Não é permitido subir na Esfinge nem entrar no fosso, e isso vale para todo mundo.

A Esfinge fica no mesmo lugar das pirâmides?

Fica — no mesmo platô de Gizé, poucos minutos a pé das três pirâmides e dentro do mesmo ingresso. Na prática as duas coisas são a mesma visita, e é assim que montamos o passeio ao platô de Gizé.

Ver a Esfinge de perto

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