Tutancâmon: o Faraó Menino e o Tesouro

Reinou nove anos, morreu aos dezenove e não mudou quase nada no Egito. É o faraó mais famoso da história por um motivo acidental: foi o único que os ladrões não conseguiram esvaziar.

Por que ele é famoso, se foi um faraó menor

Esta é a ironia central da egiptologia. Tutancâmon foi um rei sem importância histórica particular: subiu ao trono por volta dos nove anos, governou sob tutela de adultos, restaurou o culto tradicional que o pai havia abolido e morreu antes de completar vinte.

Ramsés II reinou 66 anos e construiu Abu Simbel. Hatshepsut governou como mulher-faraó por duas décadas. Tutmés III expandiu o império até o Eufrates. Nenhum deles é conhecido do público geral.

A diferença é que a tumba deles foi saqueada na Antiguidade, como praticamente todas. A de Tutancâmon ficou escondida sob os escombros de uma obra posterior e escapou — e por isso chegou ao século XX com mais de cinco mil objetos dentro.

Karnak, o templo cujo culto Tutancâmon restaurou

O menino que desfez a revolução do pai

Para entender Tutancâmon é preciso entender o que veio antes dele. Seu pai, quase certamente Akhenaton, fez a coisa mais radical da história egípcia: aboliu o panteão inteiro, fechou os templos, esvaziou o clero de Amon e impôs o culto de um deus único, o disco solar Aton. Mudou a capital para uma cidade nova no meio do deserto.

Deu errado. Quando Akhenaton morreu, o país estava em crise econômica e religiosa. O menino que assumiu se chamava originalmente Tutancáton — “imagem viva de Aton”. Sob orientação da corte, mudou o próprio nome para Tutancâmon, “imagem viva de Amon”, reabriu os templos e devolveu o poder ao clero tradicional.

Foi provavelmente a decisão política mais importante do seu reinado, e quase certamente não foi dele: um garoto de dez anos não conduz uma contrarreforma religiosa sozinho.

Novembro de 1922: a descoberta

Howard Carter procurava havia seis anos, financiado por Lord Carnarvon, que já estava perto de desistir. Em 4 de novembro de 1922, um menino da equipe tropeçou numa pedra que era o topo de um degrau.

Vinte e dois dias depois, Carter abriu um pequeno furo na porta selada e enfiou uma vela. Carnarvon perguntou se ele via alguma coisa. A resposta ficou famosa: via, sim — coisas maravilhosas.

O que havia atrás eram quatro câmaras com mais de 5.000 objetos: carros de guerra desmontados, tronos, camas, arcos, roupas, comida, jogos de tabuleiro, e os três sarcófagos encaixados um dentro do outro, o mais interno em ouro maciço de 110 quilos. Catalogar tudo levou dez anos.

Nenhuma outra tumba real egípcia foi encontrada assim. É por isso que praticamente tudo o que o mundo sabe sobre objetos do cotidiano da realeza egípcia vem de um rei que quase não importou.

Onde está o tesouro hoje

A confusão mais comum entre quem viaja: o tesouro não está na tumba. Vale saber antes de montar roteiro, porque isso muda o que você precisa visitar.

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O tesouro — no Cairo

A coleção completa, incluindo a máscara funerária de ouro, está no Grande Museu Egípcio, em Gizé. É lá que se vê o acervo reunido pela primeira vez.

A múmia — em Luxor

O corpo de Tutancâmon continua no Vale dos Reis, dentro da própria tumba, numa vitrine climatizada. É o único faraó que segue onde foi enterrado.

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A tumba (KV62)

Pequena e com ingresso à parte do bilhete geral do vale. Restam as paredes pintadas e o sarcófago de pedra.

Em resumo: para ver o ouro, você precisa do museu no Cairo. Para ver o rei, precisa de Luxor. Como funcionam os ingressos e quais tumbas abrem em rodízio está explicado no nosso guia do Vale dos Reis.

A maldição, e o que aconteceu de verdade

Lord Carnarvon morreu no Cairo em abril de 1923, cinco meses após a abertura, de septicemia a partir de uma picada de mosquito infectada ao barbear-se. A imprensa britânica transformou isso em maldição, e a história pegou.

Os números não sustentam. Dos que estiveram presentes à abertura da câmara funerária, a maioria viveu décadas. Howard Carter, que abriu a tumba com as próprias mãos e passou dez anos manuseando o conteúdo, morreu em 1939, aos 64 anos — dezesseis anos depois, de linfoma. Se havia maldição, ela errou espetacularmente o alvo principal.

Um estudo publicado avaliou a sobrevivência dos ocidentais presentes e não encontrou diferença estatística em relação ao esperado. A explicação mais provável para o mito é comercial: em 1923 a história vendia jornal, e continua vendendo.

Do que ele morreu

Não se sabe com certeza, mas os exames de 2005 a 2010 estreitaram bastante o campo.

A tomografia mostrou que a antiga teoria de assassinato por pancada na cabeça era equivocada: a lesão no crânio foi feita durante a mumificação ou pelos próprios escavadores, não em vida. Em compensação, apareceu uma fratura exposta no fêmur esquerdo pouco antes da morte, compatível com queda ou acidente.

Os exames de DNA indicaram ainda malária falciparum e uma condição óssea degenerativa no pé, coerente com as dezenas de bengalas encontradas na tumba — que os egiptólogos antes interpretavam como símbolo de poder. Ele provavelmente mancava.

Os mesmos exames confirmaram que seus pais eram irmãos, o que explica boa parte das fragilidades. A leitura mais aceita hoje é combinada: um rapaz já debilitado, uma fratura grave e uma infecção que o corpo não venceu.

Onde a história dele está hoje

O ouro no Cairo, o rei em Luxor, e o templo cujo culto ele restaurou.

Museu Egípcio, no Cairo
Museu Egípcio, no Cairo
Pirâmides de Gizé
Pirâmides de Gizé
Templo de Luxor
Templo de Luxor
O templo de Philae, visto do rio
O templo de Philae, visto do rio

Perguntas frequentes sobre Tutancâmon

Quantos anos Tutancâmon tinha quando morreu?

Aproximadamente dezenove. Subiu ao trono por volta dos nove e reinou cerca de uma década.

A máscara de ouro é original?

Sim, e está exposta no Grande Museu Egípcio, em Gizé. São cerca de 10 quilos de ouro maciço com incrustações de lápis-lazúli, obsidiana e quartzo. A barba postiça foi danificada em 2014 numa limpeza e passou por restauração.

Quem eram os pais dele?

O pai era quase certamente Akhenaton. A mãe foi identificada por DNA como uma múmia conhecida como “a Dama Mais Jovem”, irmã do próprio pai. Nefertiti foi madrasta, não mãe, segundo a leitura mais aceita.

Tutancâmon construiu alguma pirâmide?

Não. Na época dele os faraós já não usavam pirâmides havia cerca de oitocentos anos — passaram a ser enterrados em tumbas escavadas na rocha do Vale dos Reis, justamente para escapar dos saqueadores. No caso dele, funcionou.

Dá para ver a múmia dele?

Dá. É o único faraó que permanece na própria tumba, exposto numa vitrine climatizada dentro da KV62, que tem ingresso separado do bilhete geral do vale.

Qual roteiro cobre o museu e a tumba?

Qualquer roteiro que junte Cairo e Luxor. O mais pedido é o Egito em 8 dias com cruzeiro pelo Nilo, a partir de US$ 999, que inclui o museu no Cairo e a margem oeste de Luxor.

Ver a máscara e a tumba na mesma viagem

O ouro está no Cairo, o rei está em Luxor. Montamos o roteiro que cobre os dois, com preço fechado por escrito.